terça-feira, agosto 08, 2006

COLUNA DO HERZOG (Primeira Edição)

Dêem-se ao respeito! (II)

Estamos em tempo remoto do século XX...

Reunião numa casa da Rua Dionísio Filgueira, Mossoró, residência do deputado federal Vingt Rosado. Em discussão, o levantamento de fundos para mais uma campanha do parlamentar mossoroense.

- Veja quanto é minha parte; quanto preciso dar? – cobra o industrial e comerciante Dix-neuf Rosado. Ele contrasta com a maioria dos presentes pelo seu jeito taciturno, em meio ao burburinho e tagarelices da maioria dos circunstantes. Cenho fechado, circunspecto, impõe-se com a própria parcimônia no uso das palavras.

Cheque à mesa, a caneta cumpre um traçado sincronizado sob o domínio firme de quem, apesar de viver em meio a irmãos voltados para a política, prefere delimitar bem seu papel. É Rosado. Político, não.

Irmão de Vingt, do senador Dix-huit Rosado e do falecido governador Dix-sept Rosado, Dix-neuf cordialmente se despede e sai passo a passo do lugar. Deixa para trás o que entende como papel seu no âmbito familiar, de modesto colaborador financeiro. Só. Sem pedir absolutamente nada em troca, empregos ou facilidades fiscais.

Agora vamos a 2002...

Com acesso direto ao ex-deputado estadual Carlos Augusto Rosado, marido da então prefeita Rosalba Ciarlini, o empresário Hugo Pinto faz-lhe um pedido. Solicita-lhe cargo comissionado para modesto aliado do grupo, que ficaria muito grato, além de poder prestar bom serviço à prefeitura.

- Infelizmente, eu não posso lhe atender. Não há mais vagas, Hugo – descarta Carlos, filho de Dix-sept Rosado, mentor do governo de Rosalba.

Poucas semanas depois, a ex-candidata a prefeito e enfermeira Fafá Rosado adere ao grupo de Carlos Augusto. Em troca, a prima obtém a nomeação em massa de irmãos, sobrinhos, parentes, aderentes, patinho de borracha, pingüim da geladeira (de casa, claro) e por aí vai.

Informado sobre o súbito surgimento de cargos - no atacado - na prefeitura, Hugo confessa sua decepção em conversa recatada, entre amigos. Outra vez se verifica que os Rosados são como galinha mineira, que segundo o folclore das alterosas, “só cisca para dentro”. Em Mossoró, o “milho” sequer lhes pertence: é público.

Filha de Dix-neuf Rosado, a hoje prefeita de Mossoró, Fafá Rosado, deu seus primeiros passos no pantanoso ambiente político como candidata derrotada à prefeitura em 2000, com apoio do casal de primos Laíre-Sandra Rosado. Tomou gosto pela coisa e em 2002 se aliava a outra banda da família, a do casal Carlos-Rosalba. Chegando 2004, ela conseguiu se eleger à prefeitura.

Avesso à política, arrojado na livre iniciativa, Dix-neuf ofertou como um de seus importantes legados a prole, num estilo espartano, o culto ao trabalho. Está em Gênesis, 3, 19, a essência de sua pregação: “Comerás o pão com o suor do teu rosto”.

O que é possível se testemunhar com a inclinação do braço familiar de Dix-neuf para a política, é a negação de primados patriarcais. O próprio ingresso de filhos no círculo do poder, certamente não o agradaria. Dix-neuf era intransigente: “Não quero filho meu envolvido com política”.

Diante de denúncias, documentadas, que o jornal Página Certa revelou há poucos dias, acertando em cheio o gabinete da prefeita, imagine a reação de Dix-neuf se estivesse vivo. Com um repertório tão variado de vícios que estariam se formando, criando uma crosta de azinhavre no entorno da família, ocorre tudo que ele repugnaria. O repertório e o volume são extensos.

A marca surreal de “desemprego zero” que a prefeita Fafá alcança, pelo menos no âmbito da família e de agregados, é o paroxismo do atrasado modelo oligárquico preservado em Mossoró pelos Rosados. Pejorativo, etimologicamente significa governo de poucos, de família, de pequeno grupo, no trato “dos negócios públicos”.

Aqui se chegou ao ponto de não sabermos mais onde ficam os guichês privado e estatal. O particular e o público se confundem, como se fossem um carro de engrenagem bicombustível. É “Flex Power”. Tem a força e toda aquela flexibilidade que a ocasião necessitar.

Dêem-se ao respeito! Mossoró não merece isso.

PRIMEIRA PÁGINA

CASOS – A Procuradoria-geral de Justiça do RN precisa montar uma força-tarefa para fuçar a folha de pessoal da Prefeitura de Mossoró. A denúncia documentada feita pelo semanário Página Certa (www.jornalpaginacerta.com.br) em sua última edição, falando de empreguismo desmedido, nepotismo e sinecuras, deixa os operadores do tal “Folioduto”, que atingiu o governo Wilma de Faria (PSB), bastante acanhados. Não é possível que o Ministério Público do RN ache que servidores da prefeitura que residem em Fortaleza, Natal, Rio de Janeiro e até no exterior estejam sob a legalidade. O MP tem elementos de sobra para agir de ofício.

LÁ? – A hierarquia da notícia, que qualquer iniciante em jornalismo precisa saber, em nível de imprensa do RN cumpre outros mecanismos de funcionamento. Abre-se manchete sensacionalista para crimes de corrupção em Rondônia, a 5 mil quilômetros de distância, mas quase ninguém ver a barbárie praticada contra o cidadão em Mossoró às expensas do dinheiro público. Só as “onçinhas” explicam.

SOLIDARIEDADE – Preciso ser solidário ao ex-deputado federal Laíre Rosado (PSB). O rigor com que segmentos da imprensa o satanizam há meses, por citação no escândalo da “Máfia dos Sanguessugas”, não é isonômico. Na hora em que aparecem situações ainda piores, de quem foi e é inquilino do Palácio da Resistência, vale o acordão do silêncio. Para eles, ambulância superfaturada é crime hediondo. Mais de R$ 2 milhões/mês pagos a cargos comissionados, boa parte a gente bem-criada e que não trabalha, seriam lícitos? A lógica das “onçinhas” é perversa.

SILÊNCIO – Com tantos assessores de imprensa, assessores de “incenso” e eunucos, os líderes políticos denunciados na máfia do “Folhaduto” da Prefeitura de Mossoró não botam a cabeça fora para oferecerem uma versão. É um silêncio que não inocenta. É revelador. Como já afirmava o grande frei Betto, “o poder não modifica o homem; o poder revela o homem”. É verdade.

GERAIS

- Mossoró abriga a partir de hoje à noite, na Estação das Artes, mais uma Feira do Livro. Sucesso garantido e continuado.
- Não pude testemunhar, mas quem acompanhou a segunda edição do evento “Dias de domingo” na Biblioteca Municipal Ney Pontes, não cansa de elogiar a iniciativa da Prefeitura de Mossoró. O governo Fafá Rosado (PFL) acertou em cheio.
- Obrigado ao secretário de Comunicação do RN, jornalista Rubens Lemos Filho; médico José Hélio; vereador e candidato a deputado federal Hermano Morais e ao economiário (e ex-vereador em Mossoró) Ivan Nogueira, pela leitura deste Blog.

SÓ PRA CONTRARIAR

Algumas pessoas de biografia até bem pouco tempo irrepreensível, que estão incrustadas no governo municipal, precisam saber que ética é como virgindade: não existe alguém mais ou menos ético ou mais ou menos virgem. É ou não é. Pronto.

Um comentário:

Anônimo disse...

Meu caro Carlos, no meu humilde espaço no Correio da Tarde, sempre que posso, tenho dado destaque ao seu ótimo blog. Parabéns. Sinta-se à vontade para mandar o que desejar a este aprendiz de escriba. Grande abraço, do leitor Luis Henrique.

Comunicado final deste Blog Jornalístico

A partir de hoje, um novo endereço na Internet responde pelo trabalho jornalístico que procuro desenvolver neste universo virtual. Depois de...